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Acordo.
Os miúdos e a mulher já estão de saída, a escola fica longe.
Ligo a TV para ver as noticias, está a terminar uma curta-metragem... Pena que não passam longas na TV.... Nas noticias nada de relevante. Desligo a TV antes do hino e encerramento de transmissão, acabo de me vestir e saio de casa, em direcção à paragem de autocarro. Como um bom cidadão, sento-me direito e quieto na lataria que me vai levar à praça junto ao local de trabalho.
Dez horas depois, a caminho de casa, uns colegas convidam-me para uma sessão de cinema. O último de Johan Karl. Declino, porque li no Culture Toujours que o filme tem quatro horas e meia, e apesar de ter saído mais cedo, hoje estou cansado e fiquei de ajudar o meu filho mais velho com os trabalhos de casa.
O trabalho é sobre História do Cinema. Vou procurar na estante alguns velhos calhamaços que podem ajudar. Começamos por recapitular as origens do cinema na Europa, como depois das primeiras experiências os governos rapidamente regularam a produção e distribuição de filmes. Logo no inicio do século XX as primeiras politicas de proteccionismo e quotas de filmes nacionais obrigatórios. Mas mais importante, a criação do Código Internacional de Qualidade, cuja ausência tornava virtualmente impossível conseguir subsídios para produzir, realizar e distribuir. Muitos filmes não aprovados, ou anteriores ao Código saíram de circulação, caíram no esquecimento ou perderam-se para sempre. Os argumentos candidatos a aprovação têm que estar em conformidade com uma série de elementos artísticos, pré-definidos para cada sub-género, um escrutínio de qualidade a que estão sujeitas as outras artes. Durante uma pausa para bebermos um café, o Joel pergunta-me se ninguém consegue fazer películas sem subsídios, com temas ou abordagens diferentes. Além dos criados no inicio do século, de um breve movimento de contra-cultura nos anos 50 e uns filmes indianos a cores dos anos 80, oficialmente,  o cinema "popularucho" foi extinto. Há boatos que, um pouco por todo o Mundo, em sítios pouco aconselháveis, ainda acontecem esporadicamente a exibição de filmes - se é que se pode chamar assim - com temas de fantasias escapistas, sem qualidade e projectados em equipamento precário. Começamos outro capítulo com a época do florescimento dos estúdios dos "auteurs", com acesso privilegiado a subsídios e material de filmagem.
Rimos juntos quando recordo a história de um colega do primeiro ciclo que obrigou o professor de Artes a partir-lhe duas réguas de madeira nas mãos, até admitir que o "Poema da Neve" é o melhor da filmografia do União Soviética. Como curiosidade, para valorizar o trabalho, digo-lhe para mencionar que há alguns anos correu o rumor que iam fazer uma nova versão do êxito "A Penumbra na Luz"! Graças a Deus o subsidio foi retirado a tempo! Para quê repetir a mesma história? A polémica da altura, fez-me lembrar as alegações de uns poucos historiadores que terá existido uma "odisseia" portuguesa, escrita por um tal Camões... para quê, se as gregas já foram escritas?
Numa nota mais negra, escrevemos sobre a moda de exibir experiências cinematográficas, em que os espectadores eram os actores, encarando-se a si próprios nos grandes ecrãs que rodeavam a sala. Foi proibido na grande catástrofe de 68, quando centenas de pessoas se deixaram queimar num incêndio, fascinados pela sua imagem nos ecrãs... Mais algumas notas e o esqueleto do trabalho está pronto. 
Já é tarde, mando-o para a cama, e vou beber outro café para a varanda sentado à luz da Lua Cheia.
Não contei ao Joel que em 1988, quando eu tinha quase 10 anos, durante umas férias de Verão no Sul de Espanha - com a família e os nossos vizinhos da frente - eu e os filhos do vizinhos demos uma escapadela até a uma feira na aldeia vizinha. Lá, numa tenda velha e que cheirara a bolor,  estavam a ser projectados filmes do começo do século, não aprovados pelo Código. O dono do cinema improvisado conta aos espectadores antes do inicio da sessão que as latas com os rolos foram descobertas recentemente numa velha loja de penhores. O primeiro filme tinha 15 minutos e relatava as aventuras de um herói mascarado! Um filme de aventuras, com acção! Infelizmente, acabava com a mensagem "continua na próxima semana" e não havia mais partes nas latas com películas. Depois de umas curtas sobre a conquista do Oeste americano, a fita final, uma curta sobre um grupo de homens que viajou da Terra até à Lua! Foi irrealista e com uma mise en scéne teatral, mas a que mais me fascinou, desde esse dia até hoje, por essa imaginação e ousadia que está ausente da estagnada sociedade actual. O Homem viajar até à Lua! Não seria extraordinário realizar esse feito na vida real?

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2 comentários até agora:.

  1. Um texto muito invulgar David. A descrição assume um tom de experiência estrangeira mas ao mesmo tempo onírica. No fim perguntei-me o que querias realmente dizer...

    O teu texto é uma reacção evidente e legitima. O ano passado, "certo critico", consolou-se a escrever "auto-textos" a cada blockbusters que ia saindo e o texto remetia para o chavão "a morte do cinema dá-se com [inserir título]...".

    Noto que invertes o discurso pois a perspectiva dada sobre a morte do cinema acontece aqui pela via das restrições, regras impostas, a ilegalidade de fazer cinema diferente, os governos a pagarem sempre aos mesmos para a manutenção do conservadorismo classicista... é o que mais me sobressaiu da tua invertida abordagem paralela, feita numa critica feroz como que se te posicionasses do outro lado da barricada.

    Eu na minha utopia, ainda sou dos que acha que "cinema" pode ser qualquer filme... e a única diferença está no espectador.
    Tenho dias onde me apetece um Transformers (que todos vomitam) ou outro entretenimento de pura diversão, ou uma comédia-romãntica banal... e tenho outros dias onde quero algo totalmente oposto a isso, mais dramático, mais sério, mais artístico, etc.
    Sou um espectador e decido por mim.

    Hoje em dia com tanta pluralidade criativa, tantas correntes de cinema, tantas diferentes abordagens a filmes, diferentes origens culturais, diferentes espectadores, diferentes gostos... há espaço para tudo. E para todos!
    A cada um, o seu cinema... assim devia ser.

  2. CINE31 says:

    Na mouche, Armindo! Era exactamente isso que queria transparecer com esta ficção!
    desculpa demorar tanto tempo a responder ao comentário, mas fiquei longe deste texto algum tempo, para deixar assentar ideias. :)
    Um dia terei que escrever sobre essa utopia :)

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